AS SETE FACES DE ADOLFO BERNARDO SCHNEIDER

QUEM FOI SCHNEIDER?

Adentramos num universo documental, perscrutador, um lugar onde a memória é o maior tesouro, um lugar onde as histórias de um homem são as que ele contou sobre sua cidade e sobre o mundo, e como se envolveu com elas. Adentramos num universo de crônicas, postais, fotografias, recortes, reproduções, cartas, desabafos, alegrias, desilusões, inconformismos, reconhecimentos, documentos sagrados para quem entende que a vida é um grande livro em constante escritessência.

           Adolfo Bernardo Schneider foi quem nos trouxe esse universo, quem construiu essa casa de lembranças, rosa na maior parte do tempo, onde morou, viveu seus anos mais fartos, vivenciou sua família, fez do seu habitat um memorial, um arquivo histórico onde guardou todos os substantivos descritos acima.

            Nesta casa, neste espaço virtual, nesta ROSA DAS MEMÓRIAS, apresentaremos Schneider e suas sete facetas, de quanto em quando apresentando como se apresentava, ao mundo, esse grande protagonista joinvilense que foi, no mínimo, historiador, arqueólogo, sociólogo, ambientalista, artista, político, escritor e homem, de família como fazia questão de frisar.  

IMG_2187 – Imagem de Adolfo Schneider em frente à sua casa
IMG_3515 – Recorte de jornal com reportagem dos 91 anos de Adolfo Schneider, em frente à casa sentado em um banco

A FACE DO HISTORIADOR

Filho de industrial, Adolfo Bernardo Schneider não seguiu os rumos do pai, criador da Casa do Aço e que se transformou no império Ciser, embora tenha se dedicado aos estudos da administração e, por algum tempo, também trabalhado na área burocrática.

Curioso, metódico, meticuloso, observador e impaciente

Curioso, metódico, meticuloso, observador e impaciente com o avanço da modernidade e o quanto ela afetava a moral da sociedade, Schneider enveredou pelo universo da história e do registro dela, tendo atravessado duas guerras mundiais, a quebra da bolsa de Nova Iorque, a industrialização do Brasil e de Joinville, a construção desta cidade que saiu do lodo para se transformar em atração para milhares de pessoas de todos os lugares, a cidade dos príncipes e sua ligação com diversos reinados, a perseguição aos alemães durante a nacionalização imposta por Getúlio Vargas, às catastróficas guerras do Vietnã e das Coreias, à criação do Estado de Israel e a reformulação proposta pela ONU após a Segunda Guerra Mundial que reconfigurou o mapa geopolítico…

Tudo lhe era atrativo, a história era o seu impulso, e por causa dela, começou a colecionar registros, catalogar, escrever, classificar, compartilhar, solicitar, até se envolver totalmente com a memória ao ponto de ter criado três dois maiores espaços, em Joinville, onde o conhecimento é soberano: o Arquivo Histórico Municipal, a Academia Joinvilense de Letras e o Museu Arqueológico de Sambaqui, além, frisa-se, o fato de ter sido o primeiro diretor da Biblioteca Pública Municipal Prefeito Rolf Colin.

Respeitado pela cidade inteira, e por seus pares, como a historiadora Elly Herkenhoff – aquela que sabia tudo!, como ele dizia, Adolfo contou a cidade por quase cem anos, deixando de presente, para sempre, a sua face mais bonita, onde milhares de histórias ficaram gravadas.

Walter Benjamin, filósofo, alemão assim como Adolfo Bernardo Schneider, trouxe à tona, em seus ensaios e estudos acadêmicos, a arqueologia da palavra, que em seu contexto, refere-se a um método de análise que explora o passado não para encontrar verdades fixas ou uma linearidade histórica, mas para desenterrar as possibilidades não realizadas e as tensões presentes no presente.

Schneider também era um arqueólogo, antes de qualquer coisa, se vermos o quanto esse conceito é enraizado ao mesmo.

Um pesquisador preocupado com a origem das coisas, um homem que quis buscar o porquê de determinado termo ter desaparecido, de onde surgiu “aquela palavra indígena”, quem eram os imigrantes e de onde vieram, como foi a travessia dos vikings ou seus ascendentes noruegueses que atracaram na Babitonga, como chegaram aqui os homens sambaquianos que poliam pedras para fazer lanças e panelas.

Apaixonado pelo resgate de povos,  gravando, selecionando, separando, cavando, espanando a palavra e o que ela nos trouxe dos registros do que foi e o que era o mundo de antigamente, Schneider não poupou esforços para erguer o que hoje é considerado um dos museus arqueológicos especializados em sambaquis mais importantes do continente americano.

Com persuasão, buscou fundamentos, foi atrás de documentos, recebeu peças para o acervo, ajudou a preservar as dezenas de sítios arqueológicos da cidade de Joinville, que só veio entender a importância desses lugares e sua preservação, graças ao trabalho do arqueólogo Schneider, aquele que raspava a terra para desenterrar a palavra, o grito do passado.

Teutos e Bugres. Lusos e Selvagens. Botocudos x Escandinavos. O imigrante preto vindo do Rio de Janeiro e o relato da alemã que nunca esqueceu a Bavária. A visitação dos ciganos e também das companhias alemãs que vinham consolar a nostalgia de quem chegou a Joinville e se deparou com mangue, abafamento e mosquitos.

A hegemonia da cidade após a década de 1970 atraindo migrantes de outras regiões do país para ocupar suas fábricas. A preocupação com o passado, este morrendo ao som do rock que se instalava na década de 1950 para enfurecer os costumes e atacar o senso ético daquela época…A sociedade sempre foi uma preocupação a Schneider.

 Os povos e suas culturas, a valorização da sua terra, a paixão pelo que seus entes contribuíram, a vontade de trazer, a sua maneira, melhores horizontes para aqueles que já habitavam aqui, foi traço marcante em sua personalidade. Há relatos registrados em um de seus sete livros biográficos que trazem a história de crianças indígenas que foram cristianizadas, batizadas, foram recebidas em suas famílias, reproduzindo idiomas, costumes, comportamentos que tinham a Europa como padrão.

Aos olhos de hoje Schneider seria apedrejado. Visto dentro de sua época, reproduzindo uma cultura de então, era sua preocupação oferecer melhores condições de vida, afinal, naquele período, quem pensaria que viver numa floresta era melhor do que viver nas casas feitas à moda de Munique que se espalhavam por Joinville?

A FACE DO AMBIENTALISTA

Quem passeia pelos quase dez mil documentos deixados por Schneider acondicionados no sótão da Casa Rosa da Rua Tijucas, e percebe quantas crônicas, matérias, opiniões e outros gêneros, publicados principalmente no Jornal A Notícia, desde a sua fundação, vai perceber como as coisas da natureza, o meio ambiente, o ecossistema vivo e verde da cidade, e do mundo, foram temas e registros de suas preocupações.

Poderíamos usar como símbolo desse Schneider Ambientalista, um famoso Flamboyant que ficava na confluências das ruas Do Príncipe com a Princesa Isabel. Lutou por manter aquele flamboyant de pé até o último round, até que viu-se sem forças e a queda da árvore, que era ameaça à calçada e à via, foi um soco em seu estômago de homem apaixonado pela natureza deste criança.

Entre esses mesmos jornais poderão ser vistos reportagens gigantes, algumas até com trinta fascículos, sobre o problema dos borrachudos, sobre o Rio Cachoeira e a Baía da Babitonga, assim como os pássaros, que foram uma de suas grandes paixões – reflexos de Deus, segundo ele; animais que constituem um fichário muito colorido com dezenas de espécies de pássaros, que ele transformaria em livro.

O ambientalista Schneider também não via o homem fora desse universo, sempre o apontando como parte dele: um homem verde como deveria ser, clorofilado, e todo esperança, trazendo temperança para um mundo que ele visionava menos daninho.

Foi autor de grandes discursos

Adolfo Bernardo Schneider não foi candidato, postulante a um cargo partidário, nunca cogitou, por exemplo, virar prefeito, mas foi político, e polido, nos seus quase 100 anos de idade. Foi autor de grandes discursos, diplomático no trato com as diferenças sociais, até mesmo com a sua própria família quando resolveu não ser um industrial e investir em áreas menos técnicas e mais humanas, humanistas, humanitárias.

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O conceito Político aqui utilizado tem a ver com o homem que escrevia cartas para diversas partes do mundo em troca de informações, em troca de documentos, em troca de sabedoria.

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O conceito Político que utilizamos para definir Schneider tem a ver com seus discursos de aproximação entre um povo e outro, seus discursos impressos em centenas de crônicas onde não apenas contava a história da cidade, mas muitas vezes, apresentava denúncias e lamentos sobre o apagamento das raízes, sobre alguma construção histórica que foi esquecida, sobre o vai e vem de gente a construir a sua palavra mais falada: Joinville.

O político Schneider foi um homem que respeitou as classes, se alegrou quando viu que os políticos profissionais eleitos pelo povo trabalharam pelo crescimento social, ou os criticou quando em detrimento do progresso derrubaram locais históricos, como o coreto da Praça Lauro Muller, por exemplo. Schneider utilizava sua influência para exaltar, para apresentar, para buscar, por meio do seu nome e de tudo que esse sobrenome já significava há décadas atrás, maneiras de tornar Joinville como um centro econômico, e de saber.

A FACE DO ESCRITOR

Um homem que escrevia tudo,

tudo anotava, tudo copiava, às vezes de forma compulsiva, tanto que em muitas ocasiões, durante pesquisa de seu acervo, encontramos o mesmo material copiado cinco, seis vezes, talvez com medo de que aquela mensagem fosse perdida no tempo. Escreveu em inglês, muita coisa em alemão; noventa por cento de sua produção foi em português.

Foi o responsável pela publicação do primeiro livro infantil de Joinville – O coelhinho do Halo Azul –, tendo criado, também para as crianças, Cantam as cigarras. Escreveu de tudo: crônicas, discursos, ensaios, livros históricos, biografias, e até um livro administrativo, chamado Vendas à Prestação.

Por meio de tantos títulos, destacam-se as publicações no jornal sobre a história de Joinville, em capítulos, mas foi a série de sete volumes que relatam a sua biografia entrelaçada com a da cidade, que Adolfo Bernardo Schneider nos apresenta seus olhos, seu coração, sua memória privilegiada por ter visto a Joinville colônia sem ter esquecido de olhar para a Joinville indígena, a Joinville polaca, bugra, a cidade que ainda não tinha ruas e vielas, mas já era visitada por portugueses e pretos que habitavam a ilha de São Francisco do Sul, assim como os “selvagens”, como eram chamados os “índios” que moravam por aqui.

Suas memórias trazem histórias incríveis sobre a educação e a evolução da mesma na cidade, sobre o nacionalismo, sobre personagens que sequer imaginamos que existiram, sobre a infância da cidade contada pelos olhos infantis do próprio autor. Histórias como da visita de Liliputanos, como as do urso que sabia dançar, como do congestionamento de mulas na Rua do Príncipe, como as curiosas revelações que fez sobre a aproximação da Princesa Dona Francisca com o escritor francês Victor Hugo, tanto quanto a presença, aqui na cidade, do Duque D’Aumale, irmão do Príncipe de Joinville, responsável pela construção de uma Usina de Cachaça aqui na cidade.

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Narrador da história da cidade, carregou de poesia a passagem do tempo, e nos apresentou ruas, pessoas, verdadeiras odisseias que viveram seus pares, nos deixando a par de como era ser um estrangeiro dentro da própria terra, ao mesmo tempo em que instigou nossa imaginação quando relatou como era ser um escolar nas duas primeiras décadas do século XX, onde os lápis eram de pedra, e as mochilas, carregadas às costas, não eram bem vistas porque quem carregava coisas às costas eram escravos, e alemães, segundo ele  e por fatores histórico-religiosos, não eram adeptos da escravidão. Adolfo Bernardo Schneider escreveu muito, e sobretudo, sobre tudo! E isso, nós não podemos esquecer.

Schneider foi pai. Foi filho. Foi irmão. Esses três pontos cardeais de sua formação como homem e como família são muito referendados em seus registros. Em seu livro Memórias II – de um menino de dez anos, ele já pontua diversas traços da sua família; a mãe que tocava piano, o carro da família, a vontade do pai dele ir estudar na Alemanha, depois relatos da sua esposa, a filha que tinha diversos problemas e que morreu muito cedo, suas relações com os parentes.

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Supomos que tenha sido um homem com as inflecções morais de quem nasceu há mais de cem anos atrás. Um homem admirável, um batalhador da palavra, principalmente da palavra Memória. O homem Schneider mostrou-se um homem em seu sentido mais pleno, daquele que é forjado para a não passar incólume pelo tempo.

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Tirou do tempo suas imagens mais bonitas! Relatou a mãe lhe dando uma maçã e fez uma analogia com a goiaba, já que a maçã, então, não era um fruto fácil de se achar em Joinville. Ele a relata num barquinho a vapor, voltando para casa depois de muito tempo, trazendo na mão a maçã mais bonita e mais vermelha do mundo.

Acreditamos que a FACE DO HOMEM SCHNEIDER é a somatória de todas as outras aqui narradas, e é a partir desta, que todas as outras se fizeram. Foi Schneider, o homem, que esculpiu suas sete personas, suas sete vitalidades.

Foto de perfil de Adolfo Bernardo Luiz Schneider

Os Arquitetos das Memórias

Marinaldo Silva

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Fotógrafo Geral e Editor Chefe